quarta-feira, 27 de maio de 2009

METADE
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.Que a música que ouço ao longe seja linda, ainda que triste.Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço, que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.Porque metade de mim é o que penso e a outra metade é um vulcão.Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que me lembro ter dado na infância,porque metade de mim é a lembrança do que fui e a outra metade não sei.Que não seja preciso mais que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espíritoe que o teu silêncio me fale cada vez maisporque metade de mim é abrigo mas a outra metade é cansaço.Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saibae que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer,porque metade de mim é platéia e a outra metade é a canção.E que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amore a outra metade também.

OSWALDO MONTENEGRO.

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